NR-1: O DESAFIO DOS RISCOS PSICOSSOCIAIS QUE AS EMPRESAS NÃO PODEM MAIS IGNORAR

22 de maio de 2026

Há menos de uma semana do início da fiscalização mais efetiva da nova NR-1, que entrará em vigor na próxima terça-feira (26 de maio), surge uma preocupação evidente: a maioria das empresas ainda não está preparada e não compreendeu plenamente o significado prático da norma.

Esse alerta foi destacado na Masterclass “Liderança adaptativa e NR-1”, promovida pela comunidade RH Modo Atleta, da empresa Vik, com apoio de Flash, Saint Paul, TotalPass e TOTVS.

No painel, foram revelados dados preocupantes: apenas 18% dos profissionais de RH afirmam conhecer profundamente a norma, enquanto metade das empresas reconhece que o adiamento foi necessário para se preparar.

O evento expôs o descompasso entre a urgência regulatória e a maturidade das organizações para lidar com riscos psicossociais no trabalho.

Conforme o guia do Ministério do Trabalho, esses riscos derivam principalmente de problemas na concepção, organização e gestão do trabalho.

Não se trata apenas de sintomas individuais, mas de questões operacionais concretas, como retrabalho excessivo, urgências constantes, fluxos ineficientes, excesso de aprovações, falta de clareza de responsabilidades e comunicação fragmentada.

Esses fatores geram pressão permanente, sensação de perda de controle e esgotamento emocional. É essa conexão entre a organização do trabalho e o adoecimento que a nova NR-1 torna impossível ignorar.

Embora associada à saúde mental, a NR-1 não é uma lei específica sobre o tema. Ela é a norma-base de segurança e saúde no trabalho, agora com foco ampliado nos riscos psicossociais.

Na prática, as empresas devem identificar, avaliar e monitorar estresse, sobrecarga, pressão excessiva e o ambiente organizacional, além dos riscos físicos tradicionais.

Indicadores como turnover, absenteísmo, afastamentos por saúde mental e denúncias internas ganham relevância – é preciso comprovar resultados.

A norma também redefine papéis internos. A responsabilidade migra para o RH, exigindo integração com o jurídico e a liderança, além da quebra de silos organizacionais.

Especialistas alertam para o risco de soluções superficiais, como questionários genéricos sem adaptação à realidade da empresa. Diagnósticos malfeitos podem ainda se tornar provas contra a companhia em ações trabalhistas.

O sucesso da implementação depende do engajamento da liderança. Isso exige capacitação e mudança cultural, pois muitos líderes ainda resistem ao tema.

Os números reforçam a urgência: segundo OMS e OIT, depressão e ansiedade causam a perda de 12 bilhões de dias de trabalho por ano, com prejuízo anual de cerca de US$ 1 trilhão em produtividade.

Portanto, a NR-1 não é apenas uma questão de bem-estar, mas uma pauta econômica, operacional e estratégica.

Embora a fiscalização inicial tenha caráter educativo, os riscos financeiros são reais. Multas podem variar de R$ 6 mil a R$ 100 mil, com possibilidade de reincidência, ações do Ministério Público do Trabalho e regressivas do INSS.

Apesar dos desafios, a NR-1 pode se tornar uma oportunidade de transformação. As empresas mais avançadas estruturam sua abordagem em três pilares: cuidado com o indivíduo, capacitação da liderança e cultura organizacional.

Em resumo, a NR-1 não cria um problema novo — ela expõe um problema antigo, exigindo que as empresas comprovem que estão realmente cuidando da saúde mental no trabalho.

O diferencial não estará apenas no cumprimento da norma, mas na capacidade de transformar dados em ações concretas.

*Artigo original do Exame.

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