O QUE A SAÍDA DE FUNCIONÁRIOS REVELA SOBRE A SAÚDE FINANCEIRA DA SUA EMPRESA

23 de outubro de 2026

Quando uma empresa perde funcionários com frequência, o problema costuma ser tratado como algo do RH: vagas para repor, treinamentos para refazer, equipes que nunca chegam a se estabilizar. Mas um estudo recente da Serasa Experian mostra que essa dor de cabeça pode estar dizendo muito mais sobre o negócio do que parece.

A Serasa analisou cerca de 1 milhão de empresas brasileiras e cruzou dois dados que, à primeira vista, não têm muito a ver um com o outro – a rotatividade de funcionários e a inadimplência. O resultado chama atenção. Entre as empresas que mais perdem gente, 38% estão com contas em atraso. Entre as que conseguem manter suas equipes, são 19%. Praticamente o dobro.

E fica mais interessante quando se olha o tempo que as pessoas ficam na casa. Onde o funcionário dura em média de três a seis meses, 44% das empresas estão inadimplentes. Onde ele passa de dez anos, o número cai para 16%. Entre um extremo e outro, a lógica se mantém: quanto mais tempo as pessoas ficam, menos dívidas em atraso.

Isso quer dizer que a saída de funcionários quebra empresas? Não exatamente. A própria Serasa faz questão de dizer que o estudo aponta uma associação, não uma causa. Dá para imaginar o caminho nos dois sentidos. Uma empresa com as contas em dia tem mais fôlego para oferecer crescimento, treinamento e um bom ambiente, e com isso segura seus talentos. Ao mesmo tempo, uma equipe que fica é uma equipe que conhece os processos, não perde tempo reaprendendo e guarda o conhecimento que faz a operação andar. Na vida real, uma coisa puxa a outra. Também é justo lembrar que o levantamento não perguntou por que as pessoas saíram, e há setores em que a troca de pessoal é simplesmente mais comum. Rotatividade alta, sozinha, não é sentença de má gestão.

As empresas que mais trocam de funcionários também aparecem com mais frequência entre as que correm risco de fechar as portas. Entre as de menor turnover, 26% estão na faixa de baixa longevidade, que indica maior chance de encerrar as atividades nos próximos 12 meses. Entre as de maior turnover, são 41%. Olhando pelo tempo de permanência, a diferença se repete: 44% das empresas em que o funcionário fica menos de três meses estão nessa situação, contra 24% daquelas com vínculos de mais de dez anos.

Para bancos e financeiras, isso abre uma nova lente. Até hoje, o que pesava na hora de conceder crédito era histórico de pagamento e score. Só que duas empresas com a mesma pontuação podem ter riscos bem diferentes. Na faixa de 455 a 539 pontos do Score PJ, a inadimplência média é de 22,1%. Entre as empresas com equipes estáveis, ela fica em 15,7%. Entre as que vivem trocando de gente, sobe para 29,7%. Em outras palavras, o jeito como a empresa cuida das suas pessoas pode começar a pesar na hora de conseguir um empréstimo.

E o Brasil tem um histórico complicado nesse ponto. Dados do Ministério do Trabalho analisados pelo Dieese mostraram, entre 2002 e 2013, uma rotatividade na casa dos 64% entre os trabalhadores com carteira assinada, com quase metade dos desligamentos acontecendo antes dos seis meses de casa. É justamente a faixa em que a Serasa encontrou os piores índices de inadimplência.

Para quem trabalha com saúde e segurança do trabalho, essa conversa tem um capítulo a mais. Desde maio de 2026, a nova NR-1 exige que as empresas incluam os riscos psicossociais no gerenciamento de riscos ocupacionais e no PGR. Sobrecarga, metas impossíveis, falta de comunicação, conflitos, liderança ausente. Coisas que antes ficavam na conta do “clima organizacional” agora são riscos que precisam ser mapeados e controlados.

E são exatamente esses fatores que fazem muito funcionários pedir demissão ou se afastar. Cuidar bem deles protege a empresa duas vezes: evita autuações, processos e aumento de custos previdenciários, como a elevação do FAP por afastamentos ligados ao trabalho, e ajuda a manter por perto as pessoas que fazem o negócio funcionar.

No fim das contas, a rotatividade deixou de ser assunto só do RH. Ela diz algo sobre a estabilidade da empresa como um todo. Um ambiente de trabalho saudável não resolve sozinho os problemas financeiros de ninguém, mas está cada vez mais claro que faz parte da receita de uma empresa sólida, aos olhos de quem empresta, de quem investe e de quem trabalha nela.

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